Renato Augusto foi o camisa 10 do Flamengo, hoje é o 10 do Leverkusen. O atleta, em entrevista ao repórter Lucas Bettine do Jornal Placar, onde exclusiva já foi veiculada, fala sobre a adaptação na Alemanha, Flamengo e Seleção Brasileira.
Lucas Bettine - O Leverkusen tem um bom histórico com brasileiros. Tita, Jorginho, Emerson, Zé Roberto, Juan, Lúcio e Henrique tiveram boas passagens pelo clube. O Leverkusen tem
algum esquema especial para ajudar os brasileiros na adaptação ao frio, à comida, à língua e a outras dificuldades?
Renato Augusto – Assim que fui contrato pelo Bayer Leverkusen, ouvia as pessoas dizerem que os brasileiros costumavam ter dificuldades de adaptação na Alemanha. Pelo estilo de jogo, pelo clima e pelo idioma. Mas comigo não foi assim. O clube tem uma estrutura montada para receber jogadores sul-americanos e há profissionais que se encarregam de ajudar no que for necessário no dia-a-dia. Tudo para facilitar a adaptação. Cheguei ao clube no ano passado e, desde o primeiro dia, não tive problemas dentro e fora de campo. O idioma é difícil e faço aulas particulares, mas já consigo me comunicar bem. O meu técnico Jupp Heynckes fala espanhol e isso também ajuda.
LB – O Flamengo tem uma torcida enorme e exigente. Como é a torcida do Leverkusen? Os torcedores te abordam na rua, cobram e exigem resultados como aqui no Brasil?
RA – Na Alemanha, os torcedores vão aos treinos, acompanham o dia-a-dia, comparecem aos jogos, mas quando vão abordar os jogadores são mais tímidos. Ao fim dos
treinos e dos jogos, eles pedem autógrafos, elogiam, dizem que gostam do meu futebol e que torcem por mim, mas são mais contidos. Sou tratado com carinho e isso me motiva cada vez mais.
LB – Seu estilo dentro de campo mudou bastante em relação aos tempos de Flamengo?
RA – Na verdade, as coisas mudaram quando comecei a jogar no Bayer Leverkusen. Mudou a minha forma de jogar e também o estilo de jogo. Na Alemanha, o jogo é mais
rápido, é um futebol de mais marcação, força e jogadas áereas. É diferente do Brasil, onde o jogo é mais cadenciado. Passei a jogar mais aberto pela ponta direita, com
liberdade de fazer jogadas também pelo meio.
LB – Você ganhou seu espaço na equipe titular, foi eleito o terceiro melhor jogador do primeiro turno da Bundesliga passada e atualmente veste a camisa 10. Você esperava
alcançar esse sucesso no duro futebol alemão tão rapidamente?
RA - As coisas na minha vida sempre aconteceram rapidamente, mas não esperava que por isso no meu primeiro semestre no Bayer Leverkusen. Até porque essa é minha
primeira experiência no futebol europeu. Fiquei realmente surpreso ao saber sobre a eleição dos melhores do primeiro turno da Bundesliga porque eu estava na Alemanha
há uns seis meses. Além disso, naquela votação, fiquei logo atrás de jogadores que já eram muito conhecidos da torcida alemã, como Franck Ribéry, do Bayern de
Munique, e o atacante Ibisevic, do Hoffenheim. A última boa surpresa foi a camisa 10. No início desta temporada, a diretoria me deu a 10, que era do grego Gekas na
temporada passada. Quero fazer uma grande temporada e retribuir a confiança de todos.
LB – Seu bom futebol vem chamando atenção de todo o mundo. Algum gigante europeu já tentou te tirar do Leverkusen?
RA – Geralmente esses assuntos ficam por conta do meu empresário Carlos Leite e do Bayer Leverkusen, pois tenho contrato até 2014. Prefiro ficar concentrado no meu
dia-a-dia e nas competições que estou disputando. Assim que cheguei, a diretoria do Bayer passou para todos os jogadores que tinha o ousado projeto de colocar o clube entre os melhores da Europa nos próximos anos. E esse é nosso objetivo também.
LB – Nas últimas temporadas o Leverkusen sempre esteve entre o 5º e o 9º lugar. Qual é o verdadeiro objetivo do clube na temporada 2009/10?
RA – O nosso objetivo é entrar na luta pelo título e levar o Bayer Leverkusen às competições européias. Nesse momento, estamos dividindo a liderança do Campeonato Alemão com o Hamburgo. Já disputamos quatro partidas, vencemos três e empatamos uma. Estamos no início de um novo trabalho no clube sob o comando do técnico Jupp Heynckes e estou confiante numa ótima campanha.
LB – Quem são os principais concorrentes ao título da Bundesliga?
RA – É difícil apontar os concorrentes e a disputa é sempre acirrada. Mas acredito que o Bayer de Munique pode ser um deles, pela força e tradição do clube, o Wolfsburgo,
que é o atual campeão alemão, e o Werder Bremem, que venceu a Copa da Alemanha. Independentemente dos adversários, o Bayer Leverkusen quer entrar na briga pelo título.
LB – Pretende seguir na Europa após o término do seu contrato com o Leverkusen, em 2014, ou voltar para o Brasil é uma opção válida?
RA – Ainda não pensei nisso. Não costumo ficar pensando muito no futuro e prefiro focar no presente. Estou no Bayer Leverkusen hoje e preciso estar concentrado no clube.
Vou pensar nesses assuntos assim que o momento chegar”
LB – Quais são as principais diferenças entre a estrutura do Leverkusen e a estrutura do Flamengo?
RA – Não gosto muito de fazer comparações. Até porque a realidade do futebol brasileiro e do futebol alemão são diferentes. O Bayer Leverkusen tem uma ótima estrutura. O
nosso centro de treinamento tem três campos para treinos e o estádio BayArena passou por uma reforma, que ampliou a capacidade e modernizou ainda mais as
dependências para o conforto dos torcedores.
LB – O futebol carioca vive uma fase ruim. Fluminense e Botafogo estão na zona do rebaixamento, e o Flamengo, melhor colocado, está apenas em 11º. Por que os clubes do
Rio de Janeiro estão em baixa?
RA – É difícil comentar de longe sobre algo que não estou mais vivendo diariamente. Da Alemanha, eu continuo vendo os jogos do Campenato Brasileiro e fico triste em ver
alguns clubes em situações difíceis. Fico na torcida daqui.
LB – Quais são os clubes favoritos ao título do Campeonato Brasileiro?
RA - Nesse momento, Internacional e Palmeiras estão na ponta e fazem boas campanhas, mas é difícil apontar favoritos. Até porque São Paulo, Goiás, Atlético Mineiro estão tentando chegar. Não tem como dar muitos palpites e ainda faltam 15 rodadas para o fim da competição. Vou continuar na torcida para que o Flamengo consiga uma boa sequência de vitórias e melhore sua posição na tabela.
LB – Você veste a 10 no Leverkusen e vestiu a 10 do Flamengo. Pretende ser o camisa 10 do Brasil na Copa de 2014? Ou ainda dá para sonhar com o Mundial da África do Sul?
RA – Todo jogador trabalha para ajudar seu clube na luta por títulos e também para vestir a camisa da Seleção. Um dos meus objetivos é chegar à Seleção Brasileira principal, principalmente porque passei pelas seleções das categorias de base. Quero continuar mostrando o meu futebol e ajudar o Bayer a se destacar. Quem sabe assim também não posso entrar na briga por uma vaga na Seleção. Sei que o técnico do Brasil tem muitas opções para o meio-de-campo, mas quero fazer boas atuações para ser uma delas. Sei que já há uma base da Seleção para a Copa da África do Sul, mas isso não significa que o grupo esteja fechado. A oportunidade pode aparecer e, se isso acontecer, quero estar pronto.